
A disputa pela hegemonia global entre China e Estados Unidos teve, em 2026, alguns de seus episódios no Rio de Janeiro. Em janeiro, o navio-hospital chinês Ark Silk Road permaneceu alguns dias atracado no Píer Mauá, apresentado como parte de uma “missão humanitária e de cooperação em saúde”. Apesar de contar com trezentos leitos de enfermaria e vinte de UTI, a embarcação não realizou atendimentos ao público. As autoridades chinesas enfatizaram, portanto, seu caráter diplomático, voltado a “estreitar laços de amizade” entre China e Brasil. Em maio, por sua vez, a cidade recebeu o porta-aviões estadunidense USS Nimitz. Tive a oportunidade de visitá-lo, e o convite para o evento a bordo, realizado em comemoração aos 250 anos da independência dos Estados Unidos, qualificava explicitamente a embarcação como um “navio de guerra em operação” e destacava a celebração da “aliança permanente entre nossas nações e o espírito de amizade e cooperação que permeia nossas relações há dois séculos”.
Não há dúvida de que, em 2026, essas visitas devem ser interpretadas também à luz da disputa geopolítica pela hegemonia global entre os Estados Unidos, em processo de perda relativa de poder, e a China, em trajetória de ascensão. As narrativas diplomáticas de ambos os países, contudo, não esgotam o significado dessas escalas. É nesse sentido que proponho um breve prólogo histórico sobre as embarcações que, a caminho da China, faziam escala no Rio de Janeiro e sobre as origens dessas conexões.
Este texto tem caráter exploratório e integra um projeto mais amplo de elaboração de um roteiro pedestre (walking tour) denominado “Rio Chinês”. A proposta se soma aos roteiros “Rio Médio-Oriental”, “Rio Europeu”, “Rio Africano” e “Rio Judaico”, que conduzo desde 2009 pelo centro histórico do Rio de Janeiro. Em conjunto, esses percursos procuram evidenciar a dimensão global da história da cidade, que foi capital do Brasil entre 1763 e 1960, e são um esforço claro de história pública, ou seja, de usar o conhecimento acadêmico referendado para amplas audiências.
Portugal foi a primeira potência marítima europeia a estabelecer relações diretas com o Império Chinês. Em 1511, os portugueses conquistaram Malaca e, em 1557, estabeleceram-se em Macau. Durante praticamente todo o período da navegação à vela, as embarcações que partiam de Lisboa para o Oriente faziam escalas no Rio de Janeiro, conhecidas como arribadas. No século XVIII, navios ingleses em viagem para o Oriente também costumavam interromper a longa travessia em portos intermediários para reabastecimento de água e alimentos frescos e para realizar reparos. Recife, Salvador e Rio de Janeiro estavam entre os principais pontos de escala, como aponta Freyre. Foi o caso da missão britânica McCartney, que aportou no Rio de Janeiro em dezembro de 1792, décadas antes da abertura oficial dos portos brasileiros.
A missão McCartney (1792–1793) partiu de Portsmouth e fez escalas na Ilha da Madeira, nas Ilhas Canárias e em Cabo Verde antes de permanecer cerca de duas semanas no Rio de Janeiro, na primeira metade de dezembro de 1792. De lá, seguiu para a China. George Macartney (1737–1806) fora enviado pelo rei George III (r. 1760–1820) para negociar com o imperador Qianlong (r. 1735–1796), buscando ampliar os direitos de comércio britânicos no território chinês e obter autorização para estabelecer uma embaixada permanente no país.
A missão reuniu mais de seiscentas pessoas, entre elas o jovem desenhista William Alexander, que registrou em imagens a entrada da cidade e o Aqueduto da Carioca. O diplomata George Staunton, encarregado de elaborar o relato da expedição, descreveu positivamente visitas a locais como o Passeio Público e a Floresta da Tijuca, mas registrou sua impressão negativa do mercado de escravizados do Valongo. O relato também destaca as dificuldades enfrentadas pela missão para encontrar intérpretes de mandarim. Segundo Taunay [1], a solução teria sido intermediada pelo cardeal Antonelli, que conseguiu, em um colégio de Nápoles, “dois rapazes chineses, convertidos, que se preparavam para missionários no próprio país” [2]. Ao que tudo indica, eles estiveram entre os primeiros chineses a pisar na América Portuguesa.
O Rio de Janeiro foi a primeira cidade brasileira a receber chineses oficialmente. Em 1808, com a transferência da corte portuguesa para o Brasil, o Império Ultramarino passou a ser governado a partir da cidade, mais precisamente do Paço Imperial. Nesse contexto, D. Rodrigo de Sousa Coutinho (1755–1812), conde de Linhares, elaborou um projeto para trazer até dois milhões de chineses, como forma de contornar as restrições ao tráfico de escravizados impostas pelos ingleses e, simultaneamente, atender ao interesse de D. João VI em transformar o chá em importante produto de exportação. Mudas de chá chegaram ao Rio por volta de 1810, seguidas pela vinda de cerca de setecentos e cinquenta chineses entre 1810 e 1812, conforme indicado por Lee. [3]
Debate-se se o fracasso do empreendimento se deu porque os trabalhadores estavam habituados ao consumo do chá verde, e não do preto cultivado, ou se o produto simplesmente não agradou ao mercado internacional. O fato é que em duas décadas ele não vingou e o experimento com plantações no Jardim Botânico, na Ilha do Governador e na Real Fazenda de Santa Cruz foi abandonado. Os chineses trazidos tiveram condições precárias de trabalho, e isso pode ter também comprometido seu rendimento.
A viagem de volta para a China era proibitiva e muitos deles ficaram na cidade. Relatos publicados em periódicos da época, hoje digitalizados pela Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, indicam que muitos se frustraram por não poderem trazer suas esposas ao Brasil. E estão lá centenas de notícias sobre seus trabalhos como vendedores ambulantes e cozinheiros, enquanto outros se dedicaram à venda de peixes nas praias, tornando-se parte da paisagem social do Rio de Janeiro durante o período da Independência. As páginas do Jornal do Commercio sugerem ainda que alguns chineses, especialmente cozinheiros, eram tratados em condições próximas às de escravização. Anúncios publicados na década de 1850 oferecem seus serviços de forma semelhante à comercialização de pessoas: “Aluga-se um bom cozinheiro China, que cozinha de toda a qualidade, tanto de forno como de fogão”.
Os produtos trazidos pelos navios provenientes da China eram desembarcados na Praça do Comércio, atual Casa França-Brasil, e distribuídos pelas casas comerciais das redondezas, especialmente na elegante Rua do Ouvidor. Periódicos como Gazeta de Notícias e o Jornal do Commercio registram inúmeros anúncios de produtos identificados como provenientes da China e que tê-los eram sinais de sofisticação e distinção social: caixas de fogo, leques, louças, aparelhos e pratos, charutos, estampas próprias para salas, papel, colchas, calças, fazendas, biombos, miudezas, caixinhas de tinta, couro, almofadas e sofás, ventarolas de palha e seda, além, naturalmente, do chá. A região também concentrava o movimento de navios que faziam a ligação entre o Rio de Janeiro e a Ásia, transportando mercadorias e, ocasionalmente, passageiros. O brigue português Novo Viajante, por exemplo, anunciava viagens para Singapura, Manila e China. [4]
Ainda na década de 1850 trabalhadores chineses foram usados na construção da Companhia de Estrada de Ferro Dom Pedro II. Como era época de epidemias de cólera e malária, muitos faleceram no contexto do trabalho e tiveram seus corpos queimados como parecia ser de sua tradição. A região em que isso aconteceu acabou recebendo o nome de Queimados e hoje é um município da Baixada Fluminense.
Como observa Jeffrey Lesser, “nas décadas de 1850 e 1860 havia menos de mil chineses no Brasil, e mesmo esse pequeno número causava protestos”. [5] A chamada “Questão Chinesa”, relativa à importação de mão de obra chinesa como alternativa ao trabalho escravizado africano, suscitou intensos debates ao longo da segunda metade do século XIX. Para setores das elites, os chineses pareciam oferecer uma solução atraente: eram representados como trabalhadores disciplinados, laboriosos, baratos e supostamente adaptados às condições tropicais. Seus opositores, porém, os descreviam como indolentes, viciados em ópio, moralmente inferiores e incapazes de assimilação. Lesser chama atenção para essa ambivalência, pela qual os chineses podiam ser simultaneamente apresentados como “modelos de virtude” e “demônios de depravação”.
D. Pedro II acompanhava esses debates em seus diários. Se, por um lado, demonstrava grande curiosidade pela China — visitou seu pavilhão na Exposição do Centenário da Independência dos Estados Unidos, na Filadélfia, e acompanhava publicações e relatos de viagens ao país —, por outro, reproduzia em seus registros privados alguns dos estereótipos correntes sobre os chineses. [6]
Em 1870, a legislação autorizou a introdução de trabalhadores asiáticos, embora o projeto não tenha prosperado. O Congresso Agrícola de 1878, realizado no Rio de Janeiro, constituiu outro importante espaço de debate sobre alternativas para a mão de obra. A “Questão Chinesa” passou, então, a ocupar jornais, o Parlamento, associações agrícolas e instituições científicas. Estavam em discussão não apenas alternativas para a escassez de trabalhadores, mas também concepções sobre o futuro racial da nação. Nesse contexto, o diplomata Salvador de Mendonça elaborou um estudo sobre os trabalhadores chineses nos EUA publicado em 1879 sob o título Trabalhadores Asiáticos.
Entre 1879 e 1881, uma missão brasileira esteve na China no contexto da viagem de circunavegação da corveta Vital de Oliveira. Dela resultou, em 1880, um Tratado de Amizade, Comércio e Navegação, além da criação de uma Companhia de Comércio e Imigração Chinesa. Cerca de mil chineses foram posteriormente enviados por essa companhia para trabalhar na Companhia Mineradora de São João d’El-Rei, de propriedade britânica.
Segundo Lesser, com o advento da República, a entrada de “indígenas da Ásia ou da África” passou inicialmente a depender de autorização do Congresso Nacional. [7] Em 1892, contudo, uma lei sancionada por Floriano Peixoto passou a permitir a livre entrada de imigrantes chineses e japoneses no Brasil, desde que não fossem “indigentes, mendigos, piratas, nem sujeitos à ação criminal em seus países” e fossem “válidos e aptos para trabalhos de qualquer indústria”. Em 1903, o prefeito Pereira Passos inaugurou, na região onde anteriormente haviam sido cultivadas plantações de chá por trabalhadores chineses, a edificação conhecida como “Vista Chinesa”, com a presença do presidente Rodrigues Alves. O projeto foi elaborado pelo arquiteto Luiz Rey, responsável também, três anos depois, pelo Jardim Suspenso do Valongo, na região portuária. Apesar da presença diminuta, os chineses tinham certa visibilidade, como observado por Fausto. [8]
No século XX, instituições contribuíram para a organização da comunidade chinesa no Rio de Janeiro. Em 1919, foi criado o Centro Social Chinês do Brasil, na Rua Gomes Freire. Nas décadas de 1920 e 1930, há registros de restaurantes chineses na Rua Barão de Mesquita, na Rua México e na Praça Tiradentes. Entre 1949 e 1974, contudo, as relações diplomáticas entre Brasil e China foram interrompidas. Nesse período, o Rio de Janeiro deixou de ser a capital do país, em 1960, com a transferência da capital para Brasília.
Em 1984, foi criada a Associação Chinesa do Rio de Janeiro, na Tijuca, reunindo, possivelmente, parte significativa dos chineses envolvidos em atividades como pastelarias e lavanderias. A partir da década de 1990, comerciantes chineses passaram também a se estabelecer na região da Saara. Essa nova imigração ocorreu por meio de redes familiares, clânicas e empresariais, consolidando a presença chinesa em uma área comercial historicamente marcada pela atuação de imigrantes do Oriente Médio. Em 2021 a antiga embaixada da China no Rio passou a abrigar a Escola Internacional Chinesa, a primeira em solo brasileiro. Ela foi estabelecida com apoio financeiro de empresários chineses residentes na cidade e de empresas do país sediadas no Brasil.
Em janeiro de 2026, a atracação de um navio chinês no Rio de Janeiro suscitou debates sobre uma possível explicitação da guinada geopolítica da China. Em agosto do mesmo ano, contudo, no contexto do Ano Cultural Brasil-China, permanece em cartaz no Museu Histórico Nacional — criado no âmbito das celebrações do centenário da Independência, em 1922 — a exposição “Sabores da China – História da alimentação na China Antiga”. A mostra também celebra os 52 anos de relações diplomáticas contínuas entre Brasil e China.
Com mais de 120 objetos provenientes do Museu Nacional da China, a exposição percorre cerca de 10 mil anos de história chinesa a partir da alimentação, abordando alimentos, utensílios, bebidas, rituais e música. Destaca-se, por exemplo, que a lichia e o pêssego, hoje amplamente apreciados no Brasil, são originários da China, além de apresentar o chá como uma das principais “contribuições da civilização chinesa para o mundo”. Um dos núcleos da exposição menciona as citadas plantações de chá introduzidas por chineses no Brasil no início do século XIX, apresentando a bebida como “mensageira cultural entre o Oriente e o Ocidente”.
O uso da expressão “Ásia Ocidental” em algumas legendas, em lugar de “Oriente Médio”, pode ser interpretado como um indício, ainda que pontual, de uma perspectiva geopolítica que privilegia a Ásia como referência para a denominação de outras regiões e sub-regiões, em contraste com a tradicional centralidade das categorias formuladas a partir do Ocidente. O eixo principal da exposição, contudo, parece ser menos geopolítico do que cultural: apresentar a China como uma civilização milenar marcada pela “harmonia na diversidade” e enfatizar a ideia de que os “diálogos culturais são mais necessários” em um contexto internacional de crescente fragmentação.
Fotografia: Pexels
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