Ao longo dos anos, a possível adesão do Brasil à Iniciativa chinesa tem sido amplamente debatida. A visita do presidente chinês Xi Jinping ao Brasil, em novembro de 2024, resultou no anúncio de uma "sinergia" entre o país e a Iniciativa Cinturão e Rota (BRI, sigla em inglês), porém sem uma adesão formal. Na ocasião, foram ratificados 37 atos nas searas de agricultura, comércio, investimentos, infraestrutura, indústria, energia, mineração, finanças, ciência e tecnologia, comunicações, desenvolvimento sustentável, turismo, esportes, saúde, educação e cultura, reverberando a magnitude das relações internacionais entre os dois países.
O objetivo deste texto é analisar de forma crítica os motivos que levaram à não adesão formal do Brasil à Iniciativa Cinturão e Rota, as implicações dessa decisão para a economia e a diplomacia brasileira, e as alternativas possíveis para ampliar a cooperação com a China sem comprometer a autonomia estratégica nacional.
Conforme explana Xi Jinping,
Sendo os dois maiores países em desenvolvimento, em seus respectivos hemisférios, China e Brasil devem assumir proativamente a grande responsabilidade histórica de salvaguardar os interesses comuns dos países do Sul Global e de promover uma ordem internacional mais justa e equitativa. Vamos aprofundar a cooperação em áreas prioritárias como economia e comércio, finanças, ciência e tecnologia, infraestrutura e produção ambiental. E reforçar a cooperação em áreas emergentes, como transição energética, economia digital, inteligência artificial e mineração verde.
Na pauta do encontro, os tópicos sobre estreitamento de relações bilaterais e coordenação sobre tópicos regionais e multilaterais deram o norte da visita do presidente chinês. Lula esclarece que a visita teve grande importância pois “estabeleceremos sinergias entre as estratégias brasileiras de desenvolvimento, como a Nova Indústria Brasil (NIB), o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o Programa Rotas da Integração Sul-Americana, e o Plano de Transformação Ecológica e a Iniciativa Cinturão e Rota”. Todas essas iniciativas estão intrinsecamente ligadas à integração regional na qual Lula sempre demonstrou muito ímpeto.
Conforme apontam Pautasso e Nogara (2024), em concordância com a perspectiva adotada neste trabalho, apesar da Nova Rota da Seda envolver mais de 150 países e diversas organizações multilaterais, ainda é significativamente desconhecida e ignorada pelo público brasileiro e até por setores intelectuais especializados em temáticas vinculadas às relações internacionais. Para a América do Sul, a China já se solidificou como principal parceiro comercial em nível global. [1]
Com a entrada em operação plena do Porto de Chancay, no litoral peruano, a rede de logística e transporte entre a China e a América Latina tem se intensificado, promovendo maior eficiência no intercâmbio de mercadorias entre as duas regiões. No Brasil, o Programa Rotas da Integração Sul-Americana passou a priorizar a implantação de um corredor logístico estratégico que conecte o território brasileiro diretamente ao Porto de Chancay, viabilizando um novo eixo de exportação para o mercado chinês. De acordo com Jorge Viana, presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil)
O Brasil está buscando ativamente investimentos para modernizar portos e ferrovias, incluindo uma ferrovia bioceânica conectando os centros de agronegócios brasileiros à costa do Pacífico do Peru, alavancando o Porto de Chancay, que é financiado por investimentos chineses.
Usufruindo das facilidades do Porto de Chankay, a China também empreendeu uma rota ferroviária – marítima que conecta a cidade central de Wuhan com o porto Sul-americano, cujo intento é propiciar o transporte de produtos industriais produzidos nas regiões central e ocidental do país ao exterior, como por exemplo, os automóveis.
A hesitação do Itamaraty, as dúvidas sobre os benefícios do acordo e a preocupação com uma possível reação dos Estados Unidos foram fatores que afastaram o Brasil da Iniciativa. A ausência do Brasil na Iniciativa Cinturão e Rota representa uma limitação estratégica para o país, especialmente no atual contexto de reconfiguração econômica global. Destaca-se que o ponto crucial e fundamental são os interesses em jogo, como observava o Chanceler Azeredo da Silveira, em uma conferência na Escola Superior de Guerra:
Num mundo em constante mutação, não há coincidências permanentes nem divergências perenes. Nessas condições, não pode haver alinhamentos automáticos, porque o objeto da ação diplomática não são países, mas situações. O que devemos buscar em cada momento é explorar as faixas de coincidência que temos em cada um dos países, procurando ao mesmo tempo reduzir as áreas de divergência ou de confrontação. Essa atitude pragmática é a essência mesmo da atividade diplomática. [2]
Conforme mencionado anteriormente, mais de 150 países já aderiram ao projeto, incluindo diversas nações da América Latina e do Caribe. [3] No entanto, o Estado brasileiro permanece de fora, deixando de aproveitar oportunidades que poderiam fortalecer sua posição econômica e geopolítica. No artigo “Uma política externa pendular entre EUA e China: o Brasil se protegendo para sobreviver”, Hussein Kalout e Feliciano de Sá Guimarães argumentam que o Brasil deve adotar uma postura equilibrada diante da crescente rivalidade entre as duas potências. [4] Segundo os autores, essa estratégia compreende a construção de uma rede diversificada de acordos, formais e informais, que não apenas resguarde o país de possíveis impactos negativos desse embate geopolítico, mas também permita maximizar benefícios oriundos da relação com ambos os atores.
A adesão à Nova Rota da Seda traria benefícios concretos para o Brasil, especialmente no que se refere à infraestrutura e comércio exterior. O país tem gargalos logísticos históricos que dificultam sua competitividade global. O financiamento chinês poderia viabilizar projetos essenciais em rodovias, ferrovias e portos, reduzindo custos de exportação e ampliando a capacidade produtiva nacional. Além disso, a China já é o principal parceiro comercial do Brasil, e uma participação formal na BRI poderia aprofundar essa relação, facilitando investimentos diretos e diversificando a pauta exportadora.
É possível estabelecer essa parceria sem comprometer as relações com os EUA. Outros países, como Chile e Indonésia, têm boas relações com Washington e, ao mesmo tempo, participam da BRI. O Brasil pode adotar uma postura semelhante, negociando termos que garantam sua autonomia e interesse estratégico. A chave está na diplomacia econômica inteligente: exarar acordos que permitam benefícios concretos, sem cair em alinhamentos automáticos ou rivalidades geopolíticas desnecessárias.
A postura atual do Brasil, ao evitar a BRI por pressões externas, limita seu potencial de desenvolvimento. A política externa brasileira sempre se destacou por seu multilateralismo pragmático, e a adesão à Nova Rota da Seda deveria ser vista como um movimento estratégico, e não ideológico. O país necessita agir com visão de longo prazo, garantindo investimentos essenciais sem se submeter a uma lógica de dependência exclusiva de qualquer nação. O desenvolvimento nacional deve estar acima de rivalidades externas, e a Nova Rota da Seda oferece uma oportunidade concreta para fortalecer a economia brasileira no cenário global.
É fundamental destacar a análise de Abdenur e Muggah (2017), com a qual este trabalho concorda plenamente, ao afirmar que:
A China já é o principal parceiro comercial do Brasil. A OBOR, embora tenha origem no país asiático, ultrapassa os limites do continente. No mínimo, é fundamental que atores brasileiros acompanhem de perto os debates e as iniciativas associadas. Mas um engajamento mais institucionalizado e estratégico daria ainda mais peso a essa participação. Uma comissão interministerial, com representantes de diversos órgãos que lidam com planejamento econômico e de política externa, ajudaria a garantir a presença brasileira e a fortalecer a participação substantiva nos principais debates acerca do OBOR. Por meio do Novo Banco do Brics ou se vier a tornar-se sócio do AIIB, o Brasil também deve participar dos debates normativos acerca da iniciativa e do modelo de desenvolvimento que ela busca promover. Da mesma forma, a sociedade civil deve engajar-se nas discussões, fomentando pesquisas e debates sobre o assunto através do setor privado, de centros de pesquisa e de ONGs. Em um mundo cada vez mais multipolar, o Brasil não pode se dar ao luxo de ficar de fora das principais discussões e iniciativas geopolíticas. [5]
O futuro da atuação brasileira dependerá, portanto, de sua capacidade de articular políticas que reforcem sua presença econômica e diplomática, garantindo que sua liderança regional não seja enfraquecida diante das transformações da ordem internacional. Nesse cenário, o desafio brasileiro está em consolidar um modelo de desenvolvimento sustentável que aproveite as oportunidades globais sem comprometer sua posição proeminente na região.
A adesão do Brasil à BRI fortaleceria sua posição como um ator global de peso, evidenciando sua capacidade de conduzir uma política externa autônoma e equilibrar relações com diferentes potências. Enquanto diversos países sul-americanos já integram a Iniciativa, a ausência do Brasil o coloca em uma situação de relativo isolamento estratégico. Ao adotar uma postura mais ativa, o país não apenas ampliaria suas oportunidades de investimento, mas também reforçaria sua liderança na construção de um modelo de desenvolvimento regional mais integrado e alinhado aos interesses da América do Sul, conforme sempre foi sua intenção.
Dessa forma, a adesão à BRI não deve ser vista apenas como uma decisão comercial ou de infraestrutura, mas como um passo essencial para a consolidação do Estado brasileiro como líder regional e articulador do desenvolvimento sul-americano. A integração regional depende de investimentos robustos e de uma visão estratégica de longo prazo, e a participação do Brasil nessa Iniciativa pode ser o catalisador necessário para um novo ciclo de crescimento e cooperação no continente.
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