Esta é uma versão beta, pode conter bugs e não está completa. | This is a beta version, it may contain bugs and is not complete. | 这是一个测试版,可能包含错误并且不完整。

No governo de Xi Jinping, a defesa de uma ordem mundial centrada na integração e na cooperação entre diferentes povos emerge como um fator relevante no posicionamento internacional chinês. Nesse contexto, o conceito de Tianxia (天下) surge como uma referência para repensar a ordem internacional a partir de uma perspectiva chinesa. "Tudo sob o céu", constitui uma das categorias mais antigas do pensamento político chinês, presente em registros da dinastia Zhou (1046–221 a.C.) e em clássicos como o Livro das Odes (詩經), o Livro dos Documentos (書經) e os Analectos (論語), como mapeado por Zarrow. [1] Filosoficamente, o termo não designa apenas um território, mas uma ordem moral e cosmológica, na qual o mundo é concebido como um sistema único, hierárquico e, em tese, inclusivo. A legitimidade desse sistema deriva do "Mandato do Céu" e se expressa pela virtude, não pela força. Zhao Tingyang, principal reformulador contemporâneo do conceito, argumenta que a Tianxia pressupõe a inclusão de todos e a aceitação da diversidade do mundo, contrapondo essa lógica relacional à ontologia excludente do Estado-nação westfaliano. [2] Nessa leitura, Zhao propõe o modelo do redemoinho centrípeto, [3] descrevendo a construção da ordem política chinesa através da atração e aglutinação culturais progressivas de povos periféricos para um centro civilizacional comum, em detrimento da conquista territorial linear.
No entanto, as interpretações filosóficas e políticas da Tianxia não são homogêneas. Para Yang a ênfase na superioridade civilizacional chinesa tende a substituir a noção de identidade nacional por uma ideologia confucionista universalista: nem a raça, nem a língua, nem o costume seriam critérios legítimos de identidade, mas sim um Dao (princípio) universal que se sobrepõe a todos os valores culturais. [4] Nesse sentido, críticos apontam que o arcabouço conceitual da Tianxia reproduz a lógica de superioridade entre "self" e "outro", invertendo o eixo geográfico da hierarquia para o Oriente, mas preservando sua estrutura.
Na prática política do período em que o conceito emergiu, contudo, o Tianxia estava longe de ser uma categoria fixa. Yuri Pines demonstra que seu significado era mutável, respondendo às transformações da fragmentação política entre Estados rivais, funcionando simultaneamente como aspiração normativa de unidade e como instrumento retórico de legitimação para governantes que disputavam. [5] Essa lógica de disputas também engendra uma concepção poderosa no pensamento chinês, isto é, uma preocupação predominantemente continental com as fronteiras físicas desse mundo. Como aponta Schmitz, isso é ilustrado no Livro dos Documentos e em sua descrição da Tianxia como o conjunto de nove continentes (jiuzhou) circundado pelos quatro mares (sihai), um limite de contenção. [6]
Essa orientação predominantemente terrestre no plano da defesa não significa, contudo, ausência de relação histórica da China com o mar. A relação chinesa com o espaço marítimo não se desenvolveu necessariamente como uma ruptura em relação às preocupações terrestres, mas, em parte, como sua extensão. Essa continuidade ajuda a articular as literaturas sobre fronteiras, segurança, comércio e poder marítimo, indicando que o mar pode ter sido concebido tanto como espaço de conectividade econômica quanto como prolongamento das disputas territoriais e estratégicas do continente. Schmitz observa que a Rota Marítima da Seda teve impactos significativos sobre as regiões costeiras chinesas, e que a China estaria entre as primeiras civilizações a utilizar o mar para pesca, produção de sal e navegação; vestígios de contato marítimo remontavam ao período Neolítico, com indícios de atividade náutica em território chinês datados de até 7000 a.C. [7]Sob essa ótica, pode-se interpretar que a preocupação com o ambiente marítimo está intrinsecamente associada a um espaço de subsistência, comércio e conectividade econômica, e não necessariamente à securitização e à projeção de poder.
É justamente essa herança que confere relevância analítica à retomada do conceito de Tianxia sob Xi Jinping. Em 2017, o governo chinês elevou o Tianxia a rótulo oficial da política externa, sob o slogan da "comunidade de futuro compartilhado para a humanidade", acompanhado de expressões como "harmonizar as miríades de nações" (协和万邦) e "tudo sob o céu como uma só família" (天下一家). Nesse contexto, a Iniciativa Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative) surge como o principal instrumento material dessa retomada: ao priorizar a interconexão e a intercomunicação infraestrutural entre países, a iniciativa recupera precisamente essa tradição marítima de conectividade econômica. Esse esforço pode ser concebido como uma tentativa de "integrar o mundo físico, todas as terras sob o céu", o que Bogado Bordazar e Margueliche caracterizam como um dos pilares da Tianxia. Contudo, essa dimensão surge agora acoplada, de forma sistemática, a uma dimensão de securitização ativa do espaço marítimo, visível na expansão de capacidades da marinha chinesa. O mar deixa de ser apenas via de conectividade desmilitarizada para se tornar também extensão da defesa do Tianxia contemporâneo.
Nesse sentido, argumenta-se que a retomada de concepções filosóficas, bem como a reformulação e a atualização de elementos da memória nacional, expressa aquilo que Benedict Anderson compreende como um nacionalismo que “pensa em termos de destinos históricos”, [8] fundamentado em relações sociais construídas ao longo do tempo que conectam um povo específico a um território — o oposto, por exemplo, ao que o autor caracteriza como ideais racistas de "nação".
À luz das contribuições de Anderson, a memória desempenha um papel fundamental na política e na projeção do futuro da China. Isso porque a experiência chinesa contemporânea se caracteriza por uma forma específica de construção do nacionalismo e da comunidade imaginada que, apesar da ruptura institucional e ideológica com o Estado anterior, preserva, ressignifica e incorpora elementos sociais, institucionais e administrativos em diálogo com dinâmicas historicamente constituídas.
Da mesma forma, a capital da República Popular da China é a dos manchus (sendo que Chiang Kai-shek a transferira para Nanquim), e os líderes do Partido Comunista chinês se reúnem na Cidade Proibida dos Filhos do Céu. Na verdade, são pouquíssimos os líderes socialistas, se é que há algum, que não se sentaram nesses tronos mornos e puídos. Num nível menos evidente, os revolucionários vitoriosos também herdam as redes de funcionamento do antigo Estado: às vezes os funcionários e os informantes, mas sempre os fichários, os dossiês, os arquivos, as leis, os registros financeiros, os censos, os mapas, os tratados, as correspondências, os memorandos, e assim por diante. Tal como a complexa rede elétrica de uma grande mansão depois que o dono vai embora, o Estado espera que o novo dono ligue os interruptores para voltar a funcionar com o antigo brilho (Anderson, 2013, p. 222).
Todavia, a retomada de dinâmicas pretéritas não precisa, necessariamente, remeter a um passado distante. Ao analisar a formulação da política externa chinesa, Jinghan Zeng argumenta que o conceito de "um novo tipo de relações entre grandes potências no século XXI", apresentado por Xi Jinping durante sua visita a Washington, em 2012, como diretriz para as relações entre China e Estados Unidos, recupera o propósito das formulações de "G2" e "Chimerica", desenvolvidas anteriormente por analistas estadunidenses e rejeitadas por Hu Jintao à época. [9] Sob essa perspectiva, a proposta de Xi Jinping reintroduz esse debate anterior em novos termos.
Destaca-se, contudo, que essa reinserção e recriação de conceitos na política externa, assim como na governança doméstica da China, constituem um movimento tão heterogêneo quanto as diferentes interpretações filosóficas acerca do significado de Tianxia, conforme apresentado anteriormente. Isso decorre tanto da impossibilidade de aferir o grau de intencionalidade e consciência dos agentes envolvidos na gestão estatal — como determinar em que medida formulações do passado, vinculadas à memória nacional, efetivamente influenciam suas ações? — quanto do próprio processo de elaboração da política chinesa, conforme analisado por Zeng.
Nesse sentido, discursos e pronunciamentos de lideranças nacionais desempenham um papel crucial na construção de novos conceitos políticos que, gradualmente, passam a integrar a agenda chinesa. Quando um policy maker introduz um novo termo — sendo comum que, em um primeiro momento, seja desprovido de significado concreto —, instaura-se um debate em diferentes esferas sociais, como universidades, meios de comunicação e escolas do PCCh, entre outras instituições, mobilizando intenso interesse acadêmico. Nesse processo, segundo Zeng, a nova expressão transforma-se em objeto de estudos e interpretações que procuram atribuir-lhe conteúdo, até que se consolide um consenso interpretativo posteriormente reapropriado e institucionalizado pelo PCCh. [10]
Além disso, outro elemento introduzido na conjuntura chinesa durante a era Xi Jinping foi a alteração da orientação da formulação da política externa chinesa. Enquanto Deng Xiaoping, Jiang Zemin e Hu Jintao optaram por exercer uma postura mais discreta, equilibrando-a com a busca pelo autofortalecimento nacional, conhecida como keeping a low profile (KLP), o governo sob a liderança do Presidente Xi passou a adotar a orientação de striving for achievements, que busca defender de forma mais assertiva os interesses vitais do país. [11] É nesse mesmo contexto que uma Tianxia sob o Mar passa a ser concebida.
Fotografia: Magnific
Leia o número completo aqui
本文是项目《Sinóptica 提纲》杂志的一部分。了解更多关于本项目和其他项目的信息在这里。
本文所表达的观点不代表观中国的立场,仅代表作者个人观点。
订阅每两周一次的通讯,了解所有关于思考和分析当今中国的人的一切。