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China Maxxing e a Nova Onda de Soft Power Chinês

China Maxxing e a Nova Onda de Soft Power Chinês

Dentro das redes sociais

《Sinóptica 提纲》杂志

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2026年10月22日
Lúcia Puglia

No último ano, as redes sociais ocidentais têm visto uma nova tendência de símbolos chineses se tornando cada vez mais parte do dia a dia. Influenciadores, criadores de conteúdo e viajantes têm impulsionado um novo estilo de vida baseado em produtos e hábitos chineses, como vestir a jaqueta Adidas estilo Dinastia Tang, comprar uma Labubu da franquia Pop Mart, usar chinelos em casa e beber chá quente no dia a dia. Esse fenômeno tem sido referido como China maxxing — a potencialização da cultura chinesa na vida de estrangeiros.

Essa movimentação seria impossível há apenas alguns anos, uma vez que a pandemia de Covid-19 gerou uma grande onda de crimes de ódio contra asiáticos, especialmente chineses, que relataram sinofobia em suas comunidades até mesmo fora da China, com locais evitando consumir em negócios gerenciados por descendentes de chineses e nativos. Também houve uma grande onda de expatriados saindo da China e voltando aos seus países de origem, gerando tensão e prejudicando a imagem do país oriental.

Em contraponto, o governo chinês investiu em crescimento econômico e fortalecimento de laços com as nações ocidentais, uma vez que ficou clara a dependência das cadeias de valor envolvendo a produção chinesa. Investimentos em tecnologia, energia verde, infraestrutura e exportação tornaram-se protagonistas na estratégia de internacionalização e, após a pandemia, a China estava nos holofotes. Com uma política de vistos mais branda, o turismo de estrangeiros aumentou significativamente.

Entretanto, outro desafio enfrentado para a recuperação da imagem chinesa foi a guerra comercial com os Estados Unidos impulsionada pelo governo Trump, que gerou taxação sobre os produtos chineses e até mesmo o banimento do TikTok. Esse último movimento teve um efeito inesperado — houve uma explosão de usuários estadunidenses na rede social Red Note no final de 2025. Por isso, hoje é possível ver jovens, inclusive estadunidenses, afirmando estar “numa fase muito chinesa” em suas vidas ou que estão “se tornando” chineses. Especialistas apontam que essa reviravolta no campo de soft power asiático, que antes se concentrava principalmente na produção midiática do Japão e da Coreia do Sul, revela a insatisfação do mundo ocidental com o estilo de vida e os desafios impostos por embates políticos, tensões de guerra e crises econômicas, levando principalmente os jovens a buscarem alternativas do outro lado do mundo.

Enquanto é possível ver pontos positivos sobre essa movimentação, criadores de conteúdo descendentes de chineses, que fizeram parte das diásporas chinesas ocorridas nas últimas décadas, divergem sobre as consequências trazidas por essa nova tendência virtual.

Parte deles, principalmente da geração millennial, aponta que essa nova onda de obsessão pela cultura chinesa pode ser movida por tendências de pressão estética e fetichização do Oriente. Durante sua infância, a ascendência asiática era motivo de vergonha e humilhação nos ambientes sociais. Hoje, eles assistem a criadores não-asiáticos utilizando a cultura chinesa para impulsionar suas redes sociais, desfigurando aquilo que consideram mais importante (por exemplo, tradições do Ano Novo Chinês) e, na maior parte das vezes, obtendo um alcance maior do que os criadores que de fato possuem ascendência chinesa. Alguns afirmam que a era do “China-maxxing” é uma nova forma de orientalismo, em que os ocidentais definem o que é ser chinês ou não, mesmo sem experienciar o dia a dia na China e sua cultura.

Outro grupo formado pela Gen Z discorda dessa visão, uma vez que entende que hoje há menos preconceito com a cultura chinesa e mais curiosidade para conhecer mais sobre o país. Para eles, antes os comentários em postagens sobre a China eram negativos e associados a estereótipos, enquanto hoje em dia é mais comum ver comentários de pessoas buscando entender mais sobre a cultura chinesa e até mais amigos e colegas têm se mostrado interessados em viajar para a China.

Se por um lado o “China maxxing” possui uma raiz cultural, por outro, é possível visualizar uma reorientação econômica estratégica. A alta dos conteúdos chineses nas redes sociais pode contribuir para impactos em setores estratégicos da economia, como turismo, exportação de bens culturais e maior consumo de marcas chinesas. O “China maxxing”, que parece ser um fenômeno espontâneo, pode ser justificado por alguns temas da Economia Comportamental, como o Mere Exposure Effect e o Halo Effect. O Mere Exposure Effect explica como temos a tendência de desenvolver maior confiança a partir da exposição repetida a estímulos, como ver vários vídeos sobre pessoas viajando para a China; já o Halo Effect mostra como a impressão positiva de determinado assunto pode induzir a uma visão favorável de outra área não relacionada, como crer que a China produz tecnologia de qualidade ao ver cidades modernas, transportes rápidos e bons restaurantes.

Durante anos, a etiqueta “Made in China” era automaticamente relacionada a produtos baratos — herança das décadas de 80, 90 e do início dos anos 2000, que foi fundamental para o desenvolvimento econômico do país, mas acabou associando seus produtos e mão de obra à ideia de baixo custo. Com a crescente valorização da cultura chinesa, houve também uma mudança na percepção da qualidade dos produtos chineses, caracterizada pela tecnologia de ponta e por empresas globais, apesar de a China continuar a ser uma potência manufatureira. Esta nova visão traz uma chance de expansão da parcela de mercado para empresas como BYD, Huawei, Xiaomi, Pop Mart e até mesmo a sorveteria Mi Xue, que se tornou a maior rede de alimentos e bebidas do mundo em número de lojas (ultrapassando o Starbucks e o McDonald’s).

Ainda que o aumento da valorização internacional da cultura e das marcas chinesas ocorra simultaneamente à expansão global de empresas chinesas de alto valor agregado, não há uma relação causal direta. Contudo, o soft power não se restringe apenas ao campo diplomático, uma vez que pode servir para fortalecer marcas e melhorar relações comerciais ao reduzir a resistência dos consumidores.

Um ótimo e recente exemplo da melhora das relações entre países é o Ano Cultural Brasil-China, criado em 2026 para celebrar os 50 anos das relações diplomáticas entre ambos os países. Além disso, apesar de o Brasil não ter aderido formalmente à iniciativa Cinturão e Rota 2.0, a China permanece como o principal parceiro comercial brasileiro e as relações comerciais só continuam a crescer com projetos de maior qualidade, inovação tecnológica e iniciativas sustentáveis.

Além do crescimento das relações econômicas, a China também facilitou a entrada e permanência de estrangeiros sem visto. O primeiro semestre de 2026 recebeu 45,91 milhões de estrangeiros no país, sendo 77,7% desse número amparado pela entrada sem a necessidade de vistos. O aumento no número de estrangeiros interessados em entrar no país pode se dar pela ação das redes sociais, a partir de vídeos de recomendação de influencers e até mesmo pessoas famosas, como Timothée Chalamet, que foi flagrado jogando ping-pong com um morador local.

No fim, o fenômeno “China maxxing” diz menos sobre a China e mais sobre a “redescoberta” do Ocidente. Fica a dúvida se essa situação se sustentará a longo prazo, consolidando-se como uma mudança na forma como o Ocidente enxerga a cultura chinesa, ou se será apenas mais um hot topic deixado para trás.

Fotografia: Pexels

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Lúcia Puglia
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