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Os BRICS e a Nova Ordem Multipolar

A significância do alargamento para o embate EUA-China

Tiago Botelho dos Santos
2023年11月19日
Os BRICS e a Nova Ordem Multipolar

Desde 2011, ano em que a África do Sul integrou o antigo grupo dos BRIC, formando os BRICS, que a ordem mundial se tem alterado progressivamente. Esta alteração pode ser vista, sobretudo, no embate na última década entre a antiga ordem unipolar norte-americana e a proposta chinesa de uma nova ordem multipolar, cimentada nos BRICS, que sirva também os interesses do Sul Global. Além da China, os restantes membros dos BRICS são também economias de enorme poder no sistema internacional, especialmente nos seus contextos regionais, nomeadamente o Brasil, a maior economia sul-americana, a Rússia, uma economia de peso no contexto eurasiático, a Índia, o grande poder sul-asiático, e a África do Sul, uma das maiores economias africanas. Ao contrário do G7, o homólogo ocidental, o charme dos BRICS a outras nações vem do facto de ser uma organização puramente económica, sem objetivo claro político, que visa a não discriminação dos parceiros por ideologia política ou sistema governativo.

Apesar de, em 2017, a China ter anunciado o formato BRICS+ de modo a expandir a adesão ao grupo a novos participantes, foi apenas recentemente, entre os dias 22 e 24 de agosto, com a realização da XV Cimeira dos BRICS em Joanesburgo, na África do Sul, que a China conseguiu dar mais um passo em relação ao ideal de mundo multipolar. Desta cimeira resultou a II Declaração de Joanesburgo, na qual ficou explícito o convite à adesão de seis novos membros aos BRICS, nomeadamente a Arábia Saudita, a Argentina, o Egito, a Etiópia, os EAU e o Irão. Nesta declaração, mais uma vez, ficou patente o princípio dos BRICS da não discriminação por sistema governativo ou ideologia, algo visível no facto de entre os Estados admitidos, e segundo os critérios da Matriz para a Democracia avançada pela Universidade de Wurzburg (Alemanha), apenas a Argentina poder ser considerada uma democracia. Porém, esta adesão não significou apenas um grande passo para os BRICS no contexto da expansão organizacional, mas também o fomento de uma instituição enquadrada na agenda do Sul-Global que já é uma alternativa viável à esfera de poder norte-americana.

No embate sino-americano, as regiões do Médio Oriente e Norte da África (MENA) são uma das pedras basilares da hegemonia norte-americana que pode ajudar a China a destronar os EUA. Esta região está unida pela Organização para a Cooperação Islâmica (OCI), uma organização à semelhança da Associação de Nações do Sudeste Asiático, também conhecida como ASEAN, ou da UE, que tem como objetivo garantir a união do mundo islâmico no palco internacional. Contudo, garantir o apoio da OCI não seria tão plausível para o lado chinês sem o apoio do “velho amigo” Paquistão, um dos membros-fundadores desta mesma organização. Aliás, foi com o apoio paquistanês que a China conseguiu garantir a mediação do acordo de paz saudi-iraniano, tornando possível que o convite dos BRICS incluísse o Irão e a Arábia Saudita simultaneamente.

Conseguir a adesão no caso da Arábia Saudita, do Egito, dos Emirados Árabes Unidos (EAU) e do Irão, seria o maior feito chinês na disputa com os EUA, não só pelo significado geopolítico da adesão, como também pela redução da dependência face ao dólar e pelo facto dos BRICS passarem a representar a maioria da produção, exportação e consumo de energia mundial. Avaliando os convites, logo à partida houve uma rápida aceitação dos EAU, um dos maiores exportadores de combustíveis fósseis do mundo. Já no caso do Irão e do Egito, apesar de não ter existido resposta imediata, parece existir uma vontade mútua para a adesão. O único estado islâmico que parece ainda estar em ponderação é a Arábia Saudita, que procura perceber, primeiramente, qual o posicionamento norte-americano na questão. Porém, mesmo que os EUA se demonstrem contra a adesão saudita, não parece que a grande nação árabe se imiscua de aderir aos BRICS. Com isto, não só os BRICS garantiriam o controlo do Golfo Pérsico, devido ao posicionamento saudita, emiradense e iraniano, na região, como ainda passam a garantir uma presença ativa na região do Magrebe e um maior apoio ao conceito de Nova Ordem no seio da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEC), estabelecendo uma posição forte no comércio de combustíveis fósseis.

Ora, por outro lado, saindo do mundo islâmico, a adesão da Argentina e da Etiópia também seria um grande passo para os BRICS e, em particular, para a China. Começando pelo gigante africano, a Etiópia é uma das maiores economias em crescimento em África e a segunda maior nação no continente em termos demográficos. O investimento chinês em África tem aumentado exponencialmente nos últimos anos e, atualmente, a China é o maior investidor externo no continente, inclusive no domínio etíope. Ademais, a junção da Etiópia aos BRICS permitiria não só uma representação africana no sistema internacional mais ativa do ponto de vista político, dando força à ideia do Sul Global, como ainda permitiria aos BRICS, sobretudo à China, mediar a resolução do conflito entre os lados etíope e egípcio sobre as águas do Nilo através de uma lente da cooperação regional e desenvolvimento mútuo, tal como foi feito na mediação chinesa do conflito saudi-iraniano. Esta reconciliação entre o Egipto e a Etiópia permitiria aos BRICS garantir a paz necessária para desenvolver novos projetos regionais africanos que pudessem incluir a participação dos estados envolventes, nomeadamente na região saheliana, no Magrebe e na costa oriental africana, garantindo um desenvolvimento mais acelerado e conjunto em África.

Por fim, o caso da Argentina também se torna um duro golpe para a hegemonia norte-americana. Previamente à entrada nos BRICS, a Argentina já tinha anunciado, em abril do presente ano, que passaria a utilizar o yuan como moeda de troca no comércio com a China e, em junho, o governo argentino anunciou ter utilizado as suas reservas na moeda chinesa para pagar parte da dívida ao FMI. Com o anúncio da possível entrada nos BRICS, a segunda maior economia da América do Sul, atrás apenas do Brasil, o seu maior parceiro económico, e terceira maior da América Latina, atrás de Brasil e México, coloca-se fora do zona de influência norte-americana, diminuindo substancialmente o poder regional dos EUA. Ora, com isto, os BRICS garantem uma posição mais forte no seio da América Latina, sobretudo na dissuasão a outros países à junção aos BRICS e na diminuição da influência norte-americana numa das principais zonas de enfoque para os EUA.

Contudo, para a China, mesmo tendo tido o apoio russo nesta iniciativa, nem tudo tem sido positivo e apesar da Índia, um dos opositores à expansão, ter repensado a sua posição, a oposição brasileira à expansão dos BRICS, pelo medo de que se torne uma organização antiocidental, pode colocar um problema para futuras adesões caso a opinião se mantenha. Porém, mesmo apesar da posição brasileira ser dúbia, este parece ter sido o primeiro de muitos processos de expansão. Neste sentido, a expansão para a inclusão dos seis Estados mencionados significa, desde logo, que para a China, o processo do ideal de Nova Ordem com a união do Sul Global começa cada vez mais a caminhar para uma forte consolidação, permitindo criar maiores desafios à ordem atual no sistema internacional e, em particular, aos EUA. Com isto, a China consegue dar mais um passo na sua caminhada para primeira potência mundial no embate hegemônico com os EUA.

Referências

  1. XV BRICS Summit, «BRICS and Africa: Partnership for Mutually Accelerated Growth, Sustainable Development and Inclusive Multilateralism», Johannesburg II Declaration, 23 de Agosto de 2023, https://brics2023.gov.za/wp-content/uploads/2023/08/Jhb-II-Declaration-24-August-2023-1.pdf.

Foto de natacha cornaz, Flickr.

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