The Platform as State

The Platform as State

The Chinese Dream in the Age of Digital Governance

Sinóptica 提纲 Magazine

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OCTOBER 23, 2026
Bruna Roberta Isidorio Viana

Em novembro de 2012, a ascensão de Xi Jinping à Secretaria-Geral do Partido Comunista da China abriu uma profunda reconfiguração da arquitetura ideológica do regime. O conceito de Zhōngguó mèng (em caracteres: 中国梦), o Sonho Chinês, foi anunciado publicamente em março de 2013 e se consolidou rapidamente como o eixo narrativo central do projeto político de Xi. Ele articula três dimensões interdependentes; o rejuvenescimento da nação chinesa, a construção de um país próspero e forte, e a felicidade do povo. Trata-se, portanto, de uma operação ideológica que mobiliza, ao mesmo tempo, o repertório do nacionalismo civilizacional, a promessa do desenvolvimento material e a retórica da coesão social sob liderança do Partido. Para Tsang e Cheung, o Xi Jinping Thought, sistematizado a partir de 2017 e inscrito na Constituição do PCCh, representa a mais ousada tentativa de construção ideológica desde Mao Zedong, ao combinar marxismo-leninismo, nacionalismo confuciano e a teoria do socialismo com características chinesas.

Essa reconfiguração encontrou na governança digital seu principal vetor de operacionalização. Em 2014, Xi presidiu pessoalmente a primeira reunião do Grupo Central de Liderança para a Segurança da Internet e da Informação, sinalizando que o ciberespaço seria tratado como questão de Estado de primeira ordem. Dois anos depois, a Estratégia Nacional de Cibersegurança estabeleceu o princípio da soberania ciberespacial (网络空间主权 - Wǎngluò kōngjiān zhǔquán) como fundamento jurídico e político da governança digital chinesa. Nesse sentido, cabe apontar que essa soberania não se restringe a um sentido negativo, associado ao bloqueio de plataformas, filtro de informações e impedimento de interferência externa. Ela assume também um sentido positivo, como a capacidade do Estado de construir ativamente um ambiente digital orientado aos objetivos do desenvolvimento nacional e da estabilidade política. A infraestrutura digital se transforma, assim, em extensão direta do projeto ideológico do Sonho Chinês.

Compreender essa instrumentalização exige entender que conceitos como ideologia, democracia e plataformização assumem, no caso chinês, um significado distinto do que costuma ser pressuposto no debate ocidental.

Ideologia com contornos chineses

John Levi Martin propõe um deslocamento importante nesse entendimento uma vez que, para o autor, ideologia não é um sistema lógico dedutivo nem uma distorção manipulada da realidade, mas a teorização que os próprios atores fazem de sua posição em redes de aliança e oposição política. As ideias políticas não nascem de valores abstratos que geram opiniões por dedução, e sim da necessidade prática de os atores se orientarem no campo político, identificando aliados, justificando seu lado e deslegitimando o adversário.

O limite dessa formulação é que Martin a desenvolve inteiramente a partir do sistema bipartidário norte-americano, com categorias de liberais e conservadores que não se transpõem automaticamente para o contexto chinês, cujo arranjo político diverge estruturalmente do modelo ocidental pela ausência de pluralismo partidário e pela centralidade do PCCh. É nesse ponto que a leitura de Caice Jin sobre o “Modelo Chinês” se torna produtiva. A partir de um espectro tripartite, liberal, esquerdista e conservador, Jin mostra que, desde 2012, o discurso oficial chinês passou a absorver seletivamente elementos conservadores, como a exaltação da civilização milenar e do excepcionalismo cultural, ao mesmo tempo em que utiliza a retórica esquerdista como instrumento de legitimação formal, sem que ela oriente de fato as práticas de política real. O liberalismo, por sua vez, é sistematicamente excluído e enquadrado como ameaça à soberania do regime.

A partir desse cenário, articular esses dois autores permite o acesso a uma definição operacional. Ideologia é - ou pode ser - simultaneamente, aquilo que orienta os atores em suas redes de aliança e oposição política, como propõe Martin, e o mecanismo de defesa identitária e legitimação do Estado diante de pressões internas e externas, como descreve Jin. E complementando a discussão, Terry Eagleton aponta que entender ideologia é entender um conjunto de significados e valores que codificam interesses de poder social, operando para naturalizar e legitimar práticas políticas. No caso chinês, essa ideologia assume forma específica ao se articular com a infraestrutura digital e a plataformização como vetores de difusão e consolidação.

Democracia em disputa

Antes de avançar para a plataformização, é preciso situar o terreno sociopolítico em que o Sonho Chinês é racionalizado, e isso passa por perguntar: o é democracia? Em sua origem grega, demos e kratein, o termo remete ao governo do povo. A formulação mais conhecida permanece a de Abraham Lincoln, “governo do povo, pelo povo e para o povo”, segundo a qual o poder emana da população, é exercido por ela e deve atender aos seus interesses.

Robert Dahl aprofunda essa definição com o conceito de poliarquia, segundo o qual a democracia moderna se sustenta em dois eixos, a contestação pública, ou seja, a possibilidade real de oposição e disputa política, e a participação inclusiva, o direito de amplos segmentos da população de influenciar decisões coletivas. Para Dahl, nenhum regime é plenamente democrático sem que ambas as dimensões estejam operativas. Por outro lado, Levitsky e Ziblatt avançam ao mostrar que a democracia não se sustenta apenas por instituições formais, mas depende de normas informais compartilhadas, a tolerância mútua e a reserva institucional. Quando essas normas colapsam e os rivais passam a ser tratados como ameaças existenciais, abre-se caminho para o autoritarismo, não por golpe, mas por erosão gradual. Essa análise, porém, parte do bipartidarismo norte-americano e não se aplica diretamente a um sistema de partido único.

A pergunta que se impõe, então, é como a democracia é compreendida no interior da China. Peng Hu, a partir dos dados do Asian Barometer Survey, identificaquatro concepções às quais os cidadãos chineses foram expostos: a possibilidade de mudança de governo por eleições, a liberdade de criticar governantes, a redução da desigualdade de renda e a garantia de necessidades básicas. Os resultados mostram que a maioria dos cidadãos informados associa a democracia prioritariamente às duas últimas dimensões, condições materiais de vida e responsabilização do governo, e não aos mecanismos procedimentais de alternância de poder. Mais de 55% das respostas válidas nas três pesquisas nacionais analisadas por Hu confirmam essa tendência substantiva, e não procedimental.

Essa percepção é coerente com o vocabulário político oficial do PCCh, que fundamenta sua concepção de democracia socialista no princípio 人民当家作主 (rénmín dāngjiā zuòzhǔ), “o povo é o mestre do Estado”. Nesse modelo, a participação popular é considerada legítima, mas ocorre sob a liderança do Partido, sem contestação competitiva. O PCC instrumentaliza esse princípio para sustentar que sua forma de governança apresenta uma diferencial positivo quanto à liberal ocidental não apesar da ausência de eleições pluripartidárias, mas precisamente porque, em sua narrativa, prioriza os interesses concretos do povo sobre os formalismos procedimentais.

A plataforma como Estado

Compreendidos ideologia e democracia em suas dimensões chinesas, resta examinar o mecanismo pelo qual o projeto de Xi Jinping se materializa operacionalmente, a plataformização da governança digital. Nieborg e Poell descrevem as plataformas digitais como infraestruturas reprogramáveis que moldam interações personalizadas por meio de processamento algorítmico e extração de dados em larga escala. O fenômeno guarda analogia com a burocratização da era industrial, quando o crescimento das indústrias e a integração territorial exigiram uma nova tecnologia de gestão. O volume de dados gerado pela era digital exigiu, por sua vez, uma resposta baseada na racionalidade algorítmica, na qual algoritmos passam a concentrar tanto a compreensão da realidade quanto as decisões a ela relacionadas, assumindo o papel que antes pertencia aos gerentes e aos arquivos de papel.

Essa transição não é neutra. É nela que emerge o conceito de tecnonacionalismo, a fusão entre capacidade tecnológica e identidade nacional, pela qual o desenvolvimento de tecnologias estratégicas é tratado pelo Estado como questão de soberania, e não apenas de competitividade econômica. No caso chinês, o tecnonacionalismo opera em duas direções: defensivamente, pelo isolamento do ciberespaço nacional de influências externas e; ofensivamente, pelo desenvolvimento de capacidades tecnológicas próprias como instrumento de projeção de poder. Operacionalmente, essa estratégia se realiza sobretudo pelo Grande Firewall, caracterizada como um arranjo de regulações de mídias sociais, listas de bloqueio de IP, filtros de palavras-chave e moderação humana. Uma vez isolado o ambiente digital, o Estado integra corporações nativas como Baidu, Alibaba e Tencent diretamente aos objetivos de desenvolvimento e segurança nacional.

Essa arquitetura contrasta com o modelo neoliberal ocidental de plataformização, centrado na maximização do valor acionista. No ciberespaço chinês, as plataformas são orientadas por projetos estatais estratégicos, da revitalização rural via e-commerce à calibração de filtros algorítmicos voltados à promoção da chamada “energia positiva” (正能量 zhèng néng liàng). As diretrizes da Administração do Ciberespaço da China determinam que todos os provedores de conteúdo devem aderir aos valores socialistas centrais, institucionalizando a dimensão ideológica como componente técnico da própria infraestrutura digital. Vieira reforça esse ponto ao demonstrar que o avanço tecnológico e econômico constitui um dos pilares do arcabouço ideológico do PCCh, funcionando como instrumento simultâneo de legitimação, coesão social e estabilidade política do regime.

Por fim, esse arranjo converge para o que autores chamam de “Governo como Plataforma” (Government as a Platform), no qual a infraestrutura digital padroniza a administração pública, integra serviços de forma holística e gerencia a esfera pública sob coordenação estatal. No caso chinês, esse modelo não é apenas administrativo, mas ideológico. O ideal do Sonho Chinês foi incorporado à governança das redes para retroalimentar o nacionalismo de maneira automatizada, transformando a plataforma digital no principal vetor de difusão e consolidação do projeto ideológico de Xi Jinping até os dias atuais.

Fotografia: Unsplash

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Edited by

Anna Luiza Tararam
Anna Tararam

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