Building Bridges, Connecting People

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The Strategic Role of Confucius Institutes in Brazil

Sinóptica 提纲 Magazine

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OCTOBER 24, 2026
Roberta Dinelly

Há pouco mais de meio século, Brasil e China restabeleciam suas relações diplomáticas formais. Desde 2009, a nação asiática se consolidou como a principal parceira comercial do Brasil, elevando a corrente de comércio bilateral a dimensões que seriam impensáveis há algumas décadas. Conforme o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), em 2024, ao celebrarem o cinquentenário dessa aliança histórica, os dois países viram sua parceria transcender as fronteiras estritamente econômicas, ganhando novos e expressivos contornos em áreas estratégicas como ciência, tecnologia, inovação, cultura e educação.

Nesse contexto, passou-se a falar em uma “comunidade de futuro compartilhado Brasil–China por um mundo mais justo e um planeta mais sustentável”. Mas relações estratégicas não se sustentam apenas em comércio, acordos ou encontros entre chefes de Estado. Surge, então, uma pergunta essencial: quem constrói o futuro das relações entre Brasil e China?

Governos, empresas, universidades, pesquisadores e diplomatas certamente. Mas nenhuma relação internacional se aprofunda sem alcançar as pessoas, atravessando os gabinetes para chegar às salas de aula, aos laboratórios, às empresas, às amizades e às trajetórias individuais. É nesse espaço, entre a política externa e a experiência cotidiana, que os Institutos Confúcio encontram parte de sua importância.

O primeiro Instituto Confúcio foi criado em Seul, na Coreia do Sul, em 2004. Desde então, o modelo se expandiu internacionalmente por meio de parcerias entre universidades chinesas e instituições de ensino superior de outros países. Sua finalidade é promover o ensino da língua chinesa e o conhecimento sobre a cultura chinesa, mas sua atuação ultrapassa a sala de aula, contemplando também a aplicação de exames de proficiência, organização de atividades culturais, formação de professores, bolsas, intercâmbios, conferências e aproximações acadêmicas que compõem uma estrutura que conecta pessoas e instituições.

Luiz Paulino afirma que, no Brasil, essa história começou em 2008, com a criação do Instituto Confúcio da UNESP em parceria com a Universidade de Hubei [1]. Desde então, a rede se espalhou por diferentes regiões do país. Em 2025, segundo Bárbara Orfanó, a criação da Rede dos Institutos Confúcio do Brasil reuniu 14 Institutos, distribuídos por universidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Ceará, Pará, Goiás, Bahia, Distrito Federal e Rio Grande do Norte [2]. Há ainda, em Mato Grosso, um Centro Chinês que integra essa infraestrutura de cooperação, embora não seja contabilizado como Instituto Confúcio.

Cada unidade do Instituto está inserida em uma universidade, cidade e realidade social próprias, embora compartilhem uma estrutura semelhante: em geral, dois diretores, um chinês e um brasileiro, que conduzem as agendas educacionais e institucionais, apoiados por professores chineses enviados pelas universidades parceiras, docentes brasileiros e equipes de coordenação e administração. Juntos, esses profissionais desenvolvem uma missão que vai além do ensino do mandarim: criar oportunidades de contato com a língua, a cultura e a sociedade chinesas para estudantes, pesquisadores e a comunidade acadêmica.

No ecossistema Confúcio também estão universidades, instituições apoiadoras, empresas e organizações da sociedade civil, formando uma rede que aproxima, no cotidiano, diferentes atores brasileiros e chineses. A Embaixada da República Popular da China e os Consulados-Gerais chineses também desempenham papel indispensável, apoiando iniciativas culturais e educacionais, ampliando oportunidades de intercâmbio e cooperação institucional.

Nesse contexto, aprender mandarim pode significar o caminho para compreender parceiros comerciais, realizar pesquisas acadêmicas, ingressar em uma universidade chinesa, participar de um intercâmbio, trabalhar em uma empresa chinesa instalada no Brasil ou simplesmente se aproximar de uma sociedade que exerce influência crescente sobre o mundo contemporâneo.

É nesse ponto que surge a dimensão da diplomacia cultural. Para Silva e Mendonça, os Institutos Confúcio podem ser compreendidos como instrumentos de difusão da língua e da cultura e de aproximação entre sociedades, enquanto a literatura acadêmica os analisa também como parte da diplomacia pública e do soft power chinês, capazes de construir redes e influenciar percepções através da educação e da cultura. Essas perspectivas não são contraditórias [3]. Afinal, uma instituição pode promover o intercâmbio acadêmico e, simultaneamente, integrar uma estratégia mais ampla de projeção internacional.

No Brasil, a experiência dos Institutos precisa ser observada em sua realidade concreta, especialmente no cotidiano das universidades. Há, para mim, uma dimensão significativa em fazer parte dessa história: acompanhar, de dentro, a consolidação dos Institutos Confúcio como espaços permanentes de encontros e trocas entre Brasil e China. Há mais de três anos, como coordenadora do Instituto Confucius PUC-Rio, tenho testemunhado não apenas o crescimento de uma instituição, mas o fortalecimento de uma rede humana de conhecimento, colaboração e intercâmbio. Nosso Instituto foi fundado em 2011 e foi o terceiro a existir no Brasil, sendo fruto da parceria entre a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e a Universidade de Hebei, integrando a rede internacional de Institutos Confúcio presente em mais de 150 países.

O Instituto vem atuando de forma multifacetada e ensinando os mais diferentes grupos, desde filiais de empresas chinesas que atuam no Rio de Janeiro, especialmente do setor de óleo e gás, tendo atendido empresas como CNOOC, PetroChina, CNPC, BGP e SINOPEC. Além disso, também já atuou em escolas públicas municipais no Rio de Janeiro, Duque de Caxias e Maricá, buscando ensinar com excelência independentemente do público e faixa etária, conforme apontam Sun e Bérenger [4].

Os números tornam essa transformação visível: nos últimos anos, o número de alunos cresceu exponencialmente, refletindo a demanda pelo mandarim. Mais reveladora, porém, é a diversidade desse público: jovens de 16 anos a pessoas de 76 anos, estudantes, profissionais, aposentados e curiosos unidos pela paixão pela China, pela curiosidade por sua cultura e pelo desejo de aprender sua língua.

É nesse cotidiano que a diplomacia cultural e educacional deixa de ser abstração e ganha rostos: no professor chinês que apresenta uma nova palavra, no estudante brasileiro que descobre uma expressão sem tradução exata, no aluno que começa a planejar um intercâmbio ou precisa de orientação para se candidatar a um programa de pós-graduação na China.

Naturalmente, trabalhar entre duas culturas tão distintas nem sempre é simples. Há diferenças de idioma, de costumes, de formas de comunicação e de expectativas. Navegar entre esses universos exige escuta, paciência e disposição para reconhecer que compreender o outro é um processo contínuo. Nesse ponto, brasileiros e chineses compartilham, apesar de suas diferenças, uma notável capacidade de acolher o estrangeiro com respeito, curiosidade e empatia. Essas diferenças não precisam ser apagadas, mas compreendidas, pois é justamente delas que pode nascer um encontro entre nações, fundado no diálogo, na colaboração e no respeito mútuo.

Talvez essa seja a contribuição mais profunda de um Instituto Confúcio. Ensinar mandarim é sua função mais visível, mas aprender um novo idioma também significa inserir-se em uma cultura nova, em sua história e em sua forma de compreender o mundo. Ao aprender chinês, o brasileiro não adquire apenas uma nova forma de comunicação, mas amplia sua capacidade de compreender o outro, e essa compreensão pode se transformar em uma forma concreta de mediação.

Por isso, considero o Instituto Confúcio também uma ferramenta de diplomacia, não a diplomacia dos tratados e dos grandes salões, mas uma diplomacia cotidiana, construída por encontros, criação de oportunidades e fomento de parcerias.

Ajudar um jovem a realizar um intercâmbio, aproximá-lo de uma universidade, orientá-lo em direção a uma bolsa de estudos ou simplesmente proporcionar seu primeiro contato com a língua chinesa é contribuir para formar as pessoas que, amanhã, poderão atuar nas universidades, empresas, pesquisa, tecnologia, diplomacia e em tantos outros campos da relação Brasil–China.

É certo que nem todos os estudantes de mandarim trabalharão com a China, alguns talvez jamais atravessem o oceano, mas não há dúvidas de que sairão com novas referências sobre um país cada vez mais presente no mundo e no Brasil. Outros irão mais longe: farão intercâmbios, pós-graduações, trabalharão em empresas chinesas ou participarão de pesquisas e redes que ultrapassarão a sala de aula. É impossível saber quais dessas pequenas trajetórias se transformarão, no futuro, em grandes pontes.

Por isso, quando me perguntam quem constrói o futuro das relações entre Brasil e China, penso cada vez menos apenas em governos e acordos e cada vez mais nessas pessoas. O futuro também está sendo construído em salas de aula, em laboratórios, em bibliotecas, em empresas, em eventos culturais, nos intercâmbios e nas conversas entre professores e estudantes. Está sendo construído por aqueles que decidiram aprender a língua do outro, conhecer sua história e olhar para uma sociedade diferente para além dos estereótipos e preconceitos infundados.

Depois de alguns anos acompanhando essa jornada, permanece vivo meu desejo de contribuir para uma relação harmoniosa e para um futuro compartilhado entre nossas nações, com a mesma convicção que me trouxe a esse caminho. Talvez porque, no fim, trabalhar em um Instituto Confúcio seja exatamente isso: atuar como ferramenta de diplomacia, ser uma ponte e ajudar a criar as condições para que outras pessoas atravessem essa ponte.

Uma ponte não apaga a distância entre dois países, mas a torna atravessável. Não elimina as duas margens, mas cria entre elas um caminho de encontro. Talvez seja essa a imagem que melhor traduza o que podemos construir juntos: não a superação das diferenças, mas a possibilidade de atravessá-las, reconhecê-las e, a partir delas, construir caminhos compartilhados. É com essa esperança que encerro este ensaio; nas palavras de Confúcio: “O homem virtuoso busca a harmonia sem buscar a uniformidade.”

Referencias

  1. PAULINO, Luís Antonio. O papel dos Institutos Confúcio no Brasil durante o período 2008-2018: a experiência do Instituto Confúcio na UNESP. Mundo e Desenvolvimento: Revista do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais, São Paulo, v. 2, n. 3, p. 71-92, 2019.
  2. ORFANÒ, Bárbara Malveira. A contribuição do Instituto Confúcio na formação de professores locais de mandarim no contexto brasileiro. In: ANDRADE, Miriam Piedade Mansur; ORFANÒ, Bárbara Malveira; DINIZ, Leandro Rodrigues Alves (org.). 10 anos do Instituto Confúcio na UFMG: Pesquisas sobre a China contemporânea. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2025. p.20.
  3. SILVA, H. F. da; MENDONÇA, S. M. A atuação dos Institutos Confúcio: educação e diplomacia cultural chinesa no século XXI. Revista de Relações Internacionais da UFGD, Dourados, v. 10, n. 2, p. 145-168, 2021.
  4. SUN, Yanping; BÉRENGER, Leonardo (org.). Bridging the ocean, sharing our story: voices from the 14-year journey of the Confucius Institute at PUC-Rio. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio, 2025. p. 118-134.

Fotografia: Unsplash

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Edited by

Renata Moraes
Renata Moraes

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