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JAZZ CHINÊS

Entrevista com Coco Zhao

29/11/2021

18:16

Jazz Chinês

Coco Zhao é cantor, compositor e intérprete. Ganhou reconhecimento mundial e recebeu convites para festivais de música renomados em todo o mundo. O Youth Daily chamou-o de “o jovem músico de jazz mais promissor da China”. Em 1997, Coco Zhao cooperou com a famosa cantora de jazz Betty Carter durante sua apresentação no Festival Internacional de Jazz, em Shanghai. Em 1998, ele foi selecionado para se apresentar para o presidente americano Bill Clinton e sua família durante a visita deles à Shanghai. Em 2010, ele recebeu uma bolsa de estudos do Conselho Cultural Asiático da Fundação Rockefeller. Ao longo de todos esses anos, participou de diversos shows e festivais na China, nos Estados Unidos, no Canadá, na França, na Inglaterra e em muitos outros lugares.

Pedro Steenhagen. Nascido na província de Hunan, você foi educado na Academia de Música de Wuhan e no Conservatório de Música de Shanghai. Naquela época, não havia educação em jazz disponível na China, mas, agora, você é um dos artistas mais criativos e expressivos do país no jazz contemporâneo, misturando estilos tradicionais e modernos, tanto chineses quanto ocidentais. Você poderia falar um pouco sobre sua trajetória e os destaques de sua carreira? Como você se apaixonou pelo jazz?

Coco Zhao. Eu apaixonei-me pelo jazz em 1995 ou 1996. Antes disso, porém, comecei minha carreira na música clássica, porque outros tipos de música eram considerados rebeldes no conservatório. Então, mais tarde, um grupo de colegas de escola e eu começamos a tocar rock e música pop em clubes locais em Shanghai. Lembro-me de uma noite, quando estávamos tocando no Cotton Club, e um mochileiro estadunidense da plateia trouxe um violão e perguntou se ele poderia tocar algumas músicas também; dissemos que sim, e ele tocou “Misty and Autumn Leaves”. Foi a primeira vez que tive contato com o jazz, tanto em termos de letra quanto de sonoridade. Pedimos a ele as partituras das músicas, e eu comecei a tentar aprender sobre jazz a partir daí e, quanto mais aprendia, mais me apaixonava. Para mim, trata-se de um processo contínuo de se apaixonar.

Em relação a alguns destaques da minha carreira, eu começaria com o ano de 2006, quando toquei no Festival de Jazz de Montreal com minha banda formal, os Possicobilities. Fomos a primeira banda chinesa a tocar nesse festival e, nesse mesmo ano, acabei por lançar o meu álbum, “Dream Situation”, com músicos que tocavam comigo em Shanghai naquela época. Depois, fiz mais turnês no Canadá, nos Estados Unidos e em alguns países europeus. Outro destaque seria a bolsa de estudos do Conselho Cultural Asiático da Fundação Rockefelller, que recebi em 2010. Essa bolsa permitiu que eu fosse para os Estados Unidos e ficasse em Nova Orleans, Nova York e São Francisco, mas principalmente nas duas primeiras cidades, para me aprofundar nas raízes do jazz. Foi uma ótima experiência para mim. Realmente abriu meus sentidos e expandiu meu mundo para a música e a arte. Dito isso, gosto de pensar em todos os meus shows como destaques, porque cada vez é única: os locais são diferentes, o público é diferente, e até eu sou diferente.

Eu lancei recentemente um álbum, “Shanghai Shanglow”, com JZ All Star Big Band. Para mim, é um marco. Após 20 anos trabalhando duro com música, você continua a ter algo a dizer a si mesmo como artista. Além disso, eu gostaria de pensar que também é um marco para o jazz na China, porque a maioria dos músicos do álbum são músicos que tocam na China há muito tempo – alguns deles nasceram em Shanghai, alguns são de outras cidades chinesas, e alguns são até de outros países, mas nos conecta o fato de vivermos ou termos vivido em Shanghai, assim como termos tocado ou ainda tocarmos na cidade. O álbum foi produzido por mim e pela JZ All Star Big Band, e tivemos muita sorte de ter trabalhado com grandes músicos nesse álbum, como Mats Holmquist, Alec Haavic, Antonio Hart. Também integramos e colaboramos com Guqin Player Wuna e o vocalista do KunQu, ZhangJun, a fim de incluirmos elementos da música chinesa. É um álbum com melodias folclóricas chinesas ou de Shanghai reorganizadas, bem como padrões de jazz e algumas das minhas próprias composições originais. Todo mundo deu o seu melhor, e acho que todos nós fizemos um ótimo trabalho nesse álbum. Estou ansioso para voltar à China em janeiro próximo, pois já tenho alguns shows agendados por lá.

Pedro Steenhagen. O jazz entrou pela primeira vez na China por meio de Shanghai nas décadas de 1920 e 1930, mas, durante a Revolução Cultural, pareceu desaparecer no cenário nacional. Nas décadas de 1980 e 1990, ele fez um retorno em Beijing e Shanghai e, desde então, tornou-se cada vez mais relevante. Como os cantores e compositores chineses exploraram o jazz nas últimas duas décadas? Quais são as principais cidades onde o jazz floresceu no país?

Coco Zhao. Acho que a cena de jazz evoluiu e melhorou muito. Agora, todos nós sabemos que Beijing e Shanghai foram as duas cidades que iniciaram a "revolução retro do jazz", antes que o jazz começasse a se espalhar para cidades como Guangzhou, Shenzhen e, agora, também para Chengdu, Changsha, Chongqing, Qingdao, etc. De fato, até mesmo cidades pequenas têm cenas e músicos de jazz hoje em dia. Estou muito feliz por ter podido fazer parte desse movimento. Além disso, alguns amigos do jazz e eu temos feito apresentações online e lecionado durante esses tempos de pandemia. A internet pode ser muito útil para alcançar novas pessoas e contribuir para espalhar o jazz na China para além das grandes cidades e seus clubes e festivais de jazz.

Quanto aos músicos, na China, iniciamos concursos anuais de jazz há cerca de três anos, e, em algumas ocasiões, fui convidado a fazer parte do júri. Lembro-me que, nos últimos dois anos, principalmente no último, tenho visto muitos jovens músicos promissores, com músicas muito originais, inovadoras e excelentes nos mais diversos aspectos. Fico feliz em dizer que eles estão entregando boa música, bem como ótimas novas ideias e conceitos. Todos os jurados ficaram entusiasmados ao ver jovens músicos locais, principalmente de 16 a 25 anos, se apresentando tão bem. Tínhamos até um menino de 10 anos tocando piano. Ainda temos um longo caminho a percorrer na China, mas estamos no caminho certo e ainda temos muito pelo que nos apaixonar neste caminho.

Claro que, no passado, já tínhamos muitos músicos excelentes, mas quase todos eram estrangeiros. Agora, temos músicos locais excepcionais. É incrível ver isso, então, temos de agradecer muito aos músicos estadunidenses, brasileiros, franceses, alemães, britânicos e outros de todo o mundo que vieram para a China nas últimas décadas. Alguns deles nunca saíram e permaneceram na China, diga-se de passagem. Eu diria que a coisa mais romântica a fazer não é simplesmente dizer “eu te amo”, mas mostrar que “eu estou aqui, e você está aqui”. Isso é o que essas pessoas têm feito e, para mim, isso é o que há de melhor nessa união de músicos. Grandes prêmios não são necessariamente a coisa mais importante quando comparados a tais amizades fortes e amorosas; a melhor parte é que todos estão juntos, tocando música na China, em Shanghai e em outras cidades.

Pedro Steenhagen. Em setembro de 2021, foi lançada a música “Sutil Cintilar”, interpretada por você e Zé Renato. Além de ser extremamente bela e poética, tanto na letra quanto na melodia, ela pode ser vista como um importante marco na cooperação musical entre a China e o Brasil. Qual a história por trás dessa parceria entre você, Zé Renato e Pedro Luís? Como foi essa experiência para você? E o que você sente quando ouve essa música?

Coco Zhao. Essa parceria foi sugerida pelo Evandro Menezes de Carvalho, meu lǎo péngyǒu 老朋友 (em português, velho amigo) do Brasil. Foi ele quem me apresentou essa música do Zé Renato e do Pedro Luís, “Sutil Cintilar”. O engraçado é que, até algumas semanas atrás, eu nunca havia tido a chance de falar diretamente com eles. Antes desse encontro online da RBChina (Rede Brasileira de Estudos da China), tínhamos falado apenas por meio daquela canção, mas isto é o que há de bonito na música: é um canal para se comunicar com as pessoas, mesmo que não entendamos exatamente a letra ou a linguagem – como os jogadores de um jogo, se eles jogam um mesmo game.

Eu amo “Sutil Cintilar”. É uma música linda com uma bela melodia, é alegre e tem um fluxo rítmico interessante, com muitas subdivisões. A música brasileira é complexa e, infelizmente, eu não falo português, que é a língua em que essa música foi escrita. O chinês é uma língua monossilábica, então, não há uma palavra como, por exemplo, "coração", com três sílabas. Como sou chinês, procurei escrever minhas letras em chinês de modo a encaixá-las no ritmo e na melodia da música brasileira. Meu objetivo era encontrar uma maneira de entrar no ritmo da música, ao mesmo tempo que também seguia o fluxo natural da minha língua. Essa foi a parte desafiadora. Eu não queria que fosse algo muito rígido, apenas uma tradução ou algo assim, então, eu realmente tive de ver através disso, realmente encontrar o fluxo entre a língua chinesa e o ritmo e melodia brasileiros baseados nas letras em português.

Foi difícil, mas também divertido. Gosto de passar tempo fazendo isso, e é parte do processo de criar boas músicas. Se você encontrar uma conexão especial com a música, poderá tocar em sentimentos profundos. Para ser honesto, quando eu escrevi as letras em chinês pela primeira vez, todos me disseram que eram legais, mas que não se relacionavam exatamente com o assunto da música. De fato, a música soa muito romântica, e eu não pude deixar de vivenciar sentimentos de amor, mas, depois, entendi a ideia. Veja, existe um tipo de amor menor, mais íntimo, aquele entre dois indivíduos, por exemplo, e existe um tipo de amor maior, que transcende esse escopo e que pode estar relacionado a uma comunidade, à humanidade, a um significado mais profundo que vai além da percepção que eu tinha no início.

Então, voltei para escrever as letras com essa nova perspectiva, e isso mudou a forma como fiz minha performance. As letras em português e chinês são diferentes, como você pode ver na versão final da música. No entanto, elas têm seus fundamentos comuns e são comparáveis em termos do que fazem você sentir, e essa é a verdadeira e mais importante linguagem da música. Quando finalmente falei com o Zé Renato e o Pedro Luís, foi um encontro muito bom. Eu ainda tinha esta dúvida e me perguntava o que eles realmente achavam do resultado da nossa parceria, e, depois que nos divertimos tanto conversando sobre isso, achei que eles gostaram muito. Essa experiência deixou-me com ainda mais vontade de aprender a cantar a música em português adequadamente. Afinal, soava muito bem tanto em português quanto em chinês, o que é incrível.

Pedro Steenhagen. Suas contribuições únicas para o jazz e para a cena musical como um todo têm sido verdadeiramente impressionantes, resultando em uma admiração generalizada da crítica e do público, que estão ansiosos para saber seus próximos passos. Em quais projetos você tem trabalhado recentemente? Você tem planos de se apresentar no Brasil e, possivelmente, de desenvolver novas músicas misturando chinês e português?

Coco Zhao. Eu diria que, no momento, meu principal projeto é meu programa de ensino online. Comecei esse programa em maio passado, e tem sido uma experiência notável. Eu me sinto ótimo por ter a chance de interagir com outros músicos e cantores. Quando eu os ensino, é como um processo de reaprendizagem para mim também. Vejo que os jovens estão se satisfazendo e se provando na música por minha causa, e essa sensação é espetacular. Eu sinto que estou tendo um impacto positivo em outras vidas e sendo útil, mesmo quando não estou no palco. Dito isso, estou ansioso para fazer uma turnê na China e, quem sabe, também na Europa, com os músicos envolvidos no álbum “Shanghai Shanglow”.

Quanto aos projetos no Brasil, quero muito me apresentar no país e conhecer o Zé Renato e o Pedro Luís pessoalmente. Estamos pensando em formas de expandir nossa parceria, e eu até mandei uma música minha noutro dia, mencionando que talvez eles pudessem escrever letras em português para músicas chinesas, e eles disseram que adorariam. Espero que eles entrem em contato comigo novamente em breve com algumas belas letras em português e que possamos desenvolver mais músicas juntos.

Por fim, é importante destacar que tenho outro projeto com os músicos brasileiros Julio Falavigna, que é baterista, e Bianca Gismonti, que é pianista. Nós nos divertimos muito tocando juntos, e as músicas serão lançadas em breve. Por exemplo, gravamos “Mòlìhuā 茉莉花” (em português, “Flor de Jasmim”), em que canto essa música tradicional em chinês, e eles tocam seus instrumentos mesclando melodias e ritmos chineses e brasileiros. Também gravamos “Méiguì Méiguì Wǒ Ài Nǐ 玫瑰 玫瑰 我 爱 你” (em português, “Rosa, Rosa, Eu Te Amo”), e foi uma jornada emocionante. Além disso, pretendemos gravar músicas em português e escolhemos “Flor de Lis”, do Djavan, como a primeira. Como sou o único vocalista, terei de aprender a cantá-la em português. Deseje-me sorte!

Entrevista conduzida por: Pedro Steenhagen Tradução de inglês para português feita por: Tainá Barbosa Ramos Data da publicação: 30 de novembro de 2021

AUTHORS

    Pedro Steenhagen

    Coordinator Impact

    Ph.D. Candidate in International Politics at 复旦大学 Fudan University | Researcher at the Centre for Brazil-China Studies

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